MARACA MANCA E SEU REGGAE URBANO
Do reggae roots de Kingston ao forró de Caruaru, passando pelo jazz de New Orleans e pelo rock de Liverpol, sem esquecer de apresentar o dançante eletropop londrino ao raivoso hiphop da periferia de sampa. Transitando pelas faixas do
EP REGGAE URBANO, parece difícil imaginar de onde vêm as cabeças da
Maraca Manca. Só parece. Afinal, onde mais podem conviver tantas culturas e contra-culturas em (não tão) perfeita harmonia? A banda, que tem a cidade de São Paulo como seu habitat, devora toda ideia, energia, lixo e multiplicidade da metrópole para compor seu trabalho. E, num lugar onde cada quarteirão apresenta um novo mundo, cada integrante foi essencial para construir o som e a personalidade do álbum. Formada pelo frontman
Gabriel "Gonzo", a banda tem
End Morais comandando a bateria,
Yves Remont assinando as guitarras,
Anderson Café nos batuques e percussões,
Fares Saba nas graves cordas do baixo, além do tecladista
João Leão. Um inusitado encontro de pessoas de diferentes regiões da cidade, estilos de vida e condições sociais que tatuam o grupo e sua música.
O trabalho arquitetado pela banda contou com a energia de um time de primeira. A direção musical é assinada pelo baixista maranhense
Gerson da Conceição. As mixagens ficaram nas mãos de dois especialistas em dub e early reggae, o novaiorquino
Victor Rice e o pernambucano
Buguinha Dub. Também participaram
DJ Dan Dan nos scratches e colagens, os percussionistas pernambucanos
Gustavo Da Lua e
Toca Ogam nas alfaias e outros instrumentos típicos do nordeste e de
Eduardo Sterman, produtor com ampla experiência em psy e trance. A masterização foi realizada por
Fernando Sanches, do Estúdio El Rocha.
Seja em protestos políticos, conflitos pessoais ou viagens espirituais,
REGGAE URBANOescancara seu olhar contemporâneo sobre São Paulo com um som carregado, seja pela riqueza das letras e melodias ou pela mistura de timbres e estilos.
Terra de Ninguém abre o disco com um groove denso como petróleo. Uma mistura de reggae com samba pesado e inteligentes colagens sonoras. Tudo para expressar o estado de falência e corrupção do poder. A faixa seguinte,
O Puxador de Carroça, um heavy metal com temperos nordestinos, aponta o catador de lixo como uma alegoria da vida urbana. Em
Sinta o Groove, o reggae roots é celebrado. Porém, o hip hop e o jazz “beebop” dão o tom do protesto escorado por ricos metais e vozes que fazem levantar do túmulo os primeiros “ragtimes” norteamericanos. A faixa
Menos Um! bota a Maraca Manca em contato com o poprock dos anos 80 e 90, com um embriagante toque de psicodelia que chuta as portas do aprisionamento.
Divagar dialóga com o brega, o psicodélico e o reggae, até desembocar num alucinante beat pronto para levantar qualquer pista de dança.